sábado, 25 de maio de 2013

Aquela menina

Às vezes só não queria falar ou pensar sobre o passado. Coisas bobas. A subjetividade de seu sofrimento, presente em cada palavra que resistia em dizer. As vezes não conseguia evitar as lágrimas. Da dor calada. Dos pensamentos tão recônditos e quase inacessíveis. De um sentimento tão forte, que a sufoca discretamente.
Uma pessoa que não queria ter de olhar para si mesma o tempo todo e quase nunca gostar do que via, de ter de ouvir e perceber o quanto não se encaixava em lugar algum. De se sentir excluída, por mais que lhe dissessem o contrário. 
Ela não queria se sentir tão insegura, mas não podia evitar...
 Observava fotos, uma a uma. Relembrava de uma vida tão antiga, e ao mesmo tempo tão atual. Como se nada tivesse sido resolvido, de fato. Era como se sua vida fosse um vidro quebrado. Sempre havia alguém por perto para  lhe dizer o quanto estava destruída e as palavras, por vezes indiretas lhe contavam a alma e se sentia tão despedaçada. As vezes era a dor de não ter sido planejada, de não ter sido o sonho de seus pais, e de ter que perceber ao longo dos anos que nunca se tornaria o que eles queriam que ela fosse. E que ela nunca corresponderia a um sonho postergado, feito às pressas. Ela foi um acontecimento novo. Inesperado. Foi feito o necessário para que sobrevivesse. Nunca lhe deixaram faltar o essencial  Entretanto, via que não partilhava momentos familiares verdadeiros. Que a essência seguia em sua direção, mas não era partilhada por seus pais. Sua família brigava muito. Motivos sempre desconhecidos. Tentara fechar os olhos e não ver. Mas tudo aquilo lhe afetava. Nunca mais brincara com seu primo. Nunca mais conversara com sua tia ou sua prima. Lhe viraram o rosto. Literalmente. Ela se sentiu ignorada e insegura. A partir dali, ou talvez bem antes disso, se decepcionaria com a vida. Não queria acreditar em família. Decidira que não se importaria com futilidades. Ela não se perdoava por ter sofrido tão intensamente pelos outros. Crescera com seus conteúdos mal resolvidos, abafados e ignorados. Desejava ser querida e queria preencher todas lacunas vazias. Então, fez muitos amigos. Mas no final sempre acabava por estragar tudo. Tinha raiva de sua insegura e dependência. Se sentia boba. Achava que dizia as coisas certas nos momentos erradas ou vice-versa. Quisera ser popular na escola. Queria ser reconhecida, boa em alguma coisa. Queria que seus pais a admirassem. E Chega a ser engraçado o modo como se esforçava para aprender algo novo. Quando via algo do tipo "Faça você mesmo" na TV, corria e pegava todos os materiais possíveis. A cada tentativa um novo fracasso. Mas no fundo, sempre seria aquela menina chata e incapaz de fazer algo realmente bom.  Era tão difícil entender os motivos que lhe abalavam tanto. As vezes era agressiva, insatisfeita e depois chorava por ser tão incompreendida por si mesma. Sempre precisou de motivos para se reconhecer como felicidade. A felicidade era comprada. E era cara. A felicidade que realmente queria dispunha de uma simplicidade que se encontrava nas coisas mais desejadas e mais inacessíveis...
Gostara de alguns rapazes. Tinha consciência do que queria. Ela não era tão exigente assim... queria encontrar alguém especial. Alguém que pudesse amá-la,  mas que ela pudesse retribuir da forma mais verdadeira possível. Tudo que ela teve foram decepções. A culpa era dela. Vivia se entregando facilmente.  Acreditava em quase tudo. Corria riscos o tempo todo. Era boba e se iludia. Por incrível que pareça, ela ainda tinha os pés no chão. Era tão difícil se deparar com situações ilusórias e sentir seu coração nas mãos ao descobrir que tudo fora  mera imaginação. Era difícil se sentir apaixonada por alguém que estava sempre tão próximo e também tão longe. Era difícil tentar esquecer o que sentia, o quanto ele era especial para ela. Sempre foi em vão. A situação deveria  lhe trazer força, deveria se sentir forte, corajosa e imbatível. Mesmo após dizer tudo o que tinha pra dizer, só lhe restara dor. E depois de algum tempo, dizia não se importar se sofresse novamente. Tudo "mudou" parecia tão forte e inabalável quando se olhava no espelho. Que era difícil acreditar. Mas eram só os primeiros segundos. Pois se continuasse ali, diante do espelho, olhando dentro dos próprios olhos descobriria o quanto era frágil e o quanto havia se enganado. E se enganava todos os dias. As vezes acreditava com mais intensidade. Às vezes sabia que não estava sendo sincera consigo mesma. Em alguns momentos de sua vida, ela queria ser diferente. Não queria mais se importar. E era forte, rígida, quase irreconhecível. A opinião alheia ainda lhe afetava. Fingia que não. Só queria ser feliz. Não ter medo de nada. Queria ser ela mesma. Sempre. Mas não podia, porque ninguém poderia entender- ao menos suas amigas- como doía. O segredo. A vida. A rejeição camuflada. Hoje, ainda têm seus mesmos anseios. Já não finge ser forte. Sabe o quanto é frágil. Assume que tem medo. Que quer amar alguém. Que quer ser ela mesma. Mas, às vezes, se espanta por não saber quem ela realmente é. Talvez nunca saiba.